CUIABÁ – Mato Grosso produz 71% do algodão brasileiro, lidera com folga a cotonicultura nacional e colhe safras recordes ano após ano. Apesar dessa posição privilegiada, apenas uma pequena parcela dessa produção é transformada em fios, tecidos e confecções dentro do próprio Estado. A maior parte segue para outras regiões do país ou para o mercado internacional sem agregar valor à economia local.

Para mudar esse cenário, o governador Otaviano Pivetta (Republicanos) lançou, no início deste mês, um programa de incentivo à verticalização da cadeia têxtil, considerado por lideranças do setor um dos projetos econômicos mais ambiciosos das últimas décadas para Mato Grosso.
A iniciativa cria mecanismos para que produtores de algodão possam transferir créditos acumulados de ICMS às indústrias instaladas no Estado, reduzindo custos de produção e aumentando a competitividade do setor têxtil mato-grossense. A expectativa é atrair novos investimentos, ampliar o parque industrial e transformar parte da produção agrícola em produtos de maior valor agregado.
Na prática, o programa pretende romper uma contradição histórica: Mato Grosso é uma potência agrícola, mas ainda participa de forma tímida das etapas industriais da cadeia do algodão.
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Atualmente, apenas cerca de 3% da produção estadual é industrializada na origem. O restante segue para outros estados, que concentram a produção de fios, malhas, tecidos e confecções.
Agregar valor à produção
O novo modelo prevê incentivos tributários que poderão incluir diferimento, suspensão ou créditos presumidos em determinadas etapas da cadeia produtiva. A regulamentação definitiva ocorrerá paralelamente à implantação da reforma tributária nacional.
A proposta se soma a outros instrumentos já existentes, como os incentivos do Programa de Desenvolvimento Industrial e Comercial de Mato Grosso (Prodeic) e a isenção do Fundo Estadual de Transporte e Habitação (Fethab) para o algodão destinado à indústria de fiação instalada no Estado.
Durante o lançamento, Pivetta destacou que a política de incentivos pode estimular a formação de polos industriais próximos às regiões produtoras de algodão, gerando empregos e renda em municípios do interior.
A avaliação do governo é que Mato Grosso reúne condições estratégicas para se tornar um dos principais centros têxteis da América Latina. Além da matéria-prima abundante, o Estado dispõe de energia confiável, logística em expansão e mão de obra que pode ser qualificada para atender à demanda industrial.
Campo Verde é exemplo
O principal exemplo de industrialização da cadeia do algodão em Mato Grosso está em Campo Verde, município que já concentra cinco indústrias ligadas à fiação e ao beneficiamento da fibra.
A cidade responde atualmente por cerca de 6% da produção nacional de fios de algodão e é vista como modelo para a expansão do setor em outras regiões do Estado.
A proximidade do futuro terminal ferroviário da Rumo, em Dom Aquino, com capacidade para movimentar até 10 milhões de toneladas por ano, também é apontada como fator que pode impulsionar novos investimentos industriais na região.
Desenvolvimento regional
Além de fortalecer os municípios já consolidados na produção agrícola, o programa busca estimular a instalação de indústrias em cidades com menor dinamismo econômico.
A estratégia é criar uma rede regional integrada, permitindo que municípios próximos aos grandes polos agrícolas recebam investimentos em tecelagem, malharia e confecção.
A expectativa é que a verticalização da cadeia produtiva contribua para reduzir desigualdades regionais e ampliar a geração de empregos fora das fazendas e algodoeiras.
Com uma safra que supera 6,5 milhões de toneladas de algodão em pluma e cerca de 1,5 milhão de hectares cultivados, Mato Grosso já domina a produção nacional. O objetivo agora é fazer com que parte cada vez maior dessa riqueza permaneça dentro do Estado, transformando fibra em indústria, empregos e arrecadação.
Por Eduardo Gomes – Diário de Cuiabá.
