sábado, 25 setembro, 2021
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Brad Kuikuro, a criança canaranense com nome americano, filho de um índio com uma gaúcha

CANARANA – Chamado hoje de Terra Indígena, o Xingu é um território com grande diversidade de tribos, algumas nativas e outras trazidas a força de outras regiões pelo ‘homem branco’, que começou a chegar aqui no início da década de 1940, através da Expedição Roncador-Xingu. As terras onde hoje é Canarana-MT, considerada o Portal do Xingu, recebeu a primeira migração em massa no início da década de 1970, de colonos vindos do Rio Grande do Sul. Passadas quase cinco décadas da chegada dos sulistas, começamos a ver descendentes da miscigenação entre indígenas e aqueles que vieram de outros estados.

Brad Kuikuro – filho de um índio e uma gaúcha; Foto – OP.

Um deles é a criança Brad Kuikuro. De apenas 10 anos, é filho do indígena Maricá Kuikuro, que é cineasta, intérprete e trabalha como câmera na TV Cidade Interativa. A mãe de Brad é uma gaúcha, que hoje mora no estado de Goiás, mas os pais dela ainda residem em Canarana. Filho de um índio e uma gaúcha, a criança tem um nome americano. Vive na cidade com seu pai, mas disse que seu sonho é morar na aldeia. Frequentemente vai com seu pai para o Xingu, onde gosta de pescar e de lutar huka-huka. Mas também tem desejo em ter uma conta no Instagram e relatou a vontade de conhecer o estado de origem de sua mãe, o Rio Grande do Sul.

O pai de Brad, Maricá, disse que começou a vir para a cidade aos 12 anos na companhia de seu pai, o finado cacique Tabata. Para que se possa ter uma noção da experiência, é mais ou menos como um brasileiro que não sabe nada de inglês, ir morar nos Estados Unidos. “Eu não sabia falar português, mas tinha vontade em conhecer as coisas. Aprendi sozinho, hoje sou fluente em português e trabalho como tradutor. Viajei para vários lugares, cheguei a jogar futebol nas categorias de base do Vasco. Também fiz cursos de cinegrafia, minha atual profissão”, disse Maricá.

Brad e seu pai Maricá; Foto – OP.

Por ser filho de um cacique, a tendência é que ele se casasse com uma indígena. Contudo, as viagens que constantemente fazia e seu desejo em conhecer o ‘mundo’, criou desafios nessa área. Na cidade, não é segredo para ninguém, ainda há preconceito com indígenas, mesmo em Canarana, o Portal do Xingu. Se na zona urbana passava por esse desafio, na aldeia ele também sofria preconceito, por ser considerado como um índio da cidade.

O preconceito existe em vários lugares e se manifesta de diversas formas. Conforme Maricá, os indígenas também tem preconceito, inclusive relacionado a outras etnias, que em alguns casos são julgadas com rótulos depreciativos. Porém, vale ressaltar que é natural em casamentos, na maioria dos casos, o homem e a mulher virem da mesma cultura por facilitar a convivência entre ambos. Mas quando se junta à um relacionamento entre pessoas de culturas diferentes o preconceito de familiares e amigos, o desafio se torna ainda maior.

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Brad, por sua vez, disse que ensina seus colegas de escola na cidade de Canarana muitas coisas de como é a cultura indígena. Quando está na aldeia, na convivência com as crianças, conta para seus parentes como é a vida na cidade. “Eles me perguntam e o que eu sei eu respondo”, disse Brad. Para Maricá, seu filho é a junção entre dois mundos, uma ponte que ajuda no entendimento de culturas diferentes e na queda dos preconceitos de ambos os lados. “Meus irmãos até pedem para o Brad fazer churrasco”, conta o pai sorrindo. Além de Brad, Maricá tem uma filha, também de 10 anos, filha dele com uma paulista.

Para o cineasta Kuikuro, os jovens da aldeia hoje tem acesso a internet e tudo o que o mundo pode oferecer. “Na minha visão eles também tem sonho em ter um carro, conhecer coisas diferentes. Não adianta tirar a liberdade e querer que todos fiquem trancados na aldeia sem poder vir pra cidade”, disse. Maricá, questionado pelo OPioneiro, se deixou de ser índio ao vir morar na cidade, respondeu: “Nunca deixei e nunca deixarei de ser índio”.

Em Canarana, Maricá também faz parte do Conselho Municipal do Turismo, que debate ações para promover esse setor, principalmente o etnoturismo. Um dos seus sonhos é promover o turismo indígena, gerando renda para as necessidades e sonhos dos seus parentes, além de incentivar a manutenção da cultura. Levar os moradores da cidade para conhecer a vida na aldeia, conforme ele, tem um papel muito importante para criar interação e também diminuir os tabus que ainda imperam.

Indígenas e gaúchos no CTG Pioneiros do Centro Oeste; Foto – Divulgação.

Há poucos anos, uma fotografia tirada dentro do CTG Pioneiros do Centro Oeste, juntou um grupo de dança gaúcha e um grupo de danças indígenas. Canarana, que é considerada por lei estadual, tanto como a Capital do Nativismo de Mato Grosso como também o Portal do Xingu, enxerga em Brad e em outras crianças que nascem dessa miscigenação, a construção de uma nova cultura e de um novo mundo.

Por Rafael Govari e Lavousier Machry para OPioneiro.

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