Notícias de jovens que suicidaram-se tendo a Inteligencia Artificial (IA) como confidente e testemunha, geram discussão e alerta. Mas essa é mais uma aba que se abre quando pensamos nos limites, ou falta deles, na relação que estabelecemos com o virtual e com essa inteligência que nos encanta e desafia.
Fazendo uma análise mais ampla, fica evidente que esses problemas são sintomas do desgaste social que cultivamos há tempo. Um dos resultados trágicos de ter uma geração de crianças, adolescentes — e adultos! — crescidas com essa interação virtual que se faz mais real do que a presença física e emocional, o olhar afetuoso, e o acolhimento vindo de
outro ser humano.
Por isso que, honestamente, acho que não deveria causar tanto espanto a gente ver crianças, adolescentes e adultos utilizando um chat virtual como terapeuta virtual, na ânsia de encontrar alívio e solução para suas angústias e desconexão consigo mesmo e com pessoas que deveriam ser próximas afetivamente.
E o cenário não é animador. A cada dia, as pessoas estão mais ocupadas, mais desconectadas da natureza, de si mesmas e das outras — e mais viciadas. Nossas crianças (e nós mesmos!) estamos vivendo uma espécie de Show de Truman, comandados por recortes da realidade, influencers sem formação técnica e sem valores, redes sociais que não são suportes reais, e chats de IA que não tem coração. E muitos acreditam que
isso poderia substituir ou equivaler às relações físicas, inteiras e falhas — que caracterizam nossa humanidade.
Como resultado, muita gente não sabe o que fazer e nem sentir com as próprias dores e frustrações. Não tem com quem contar. Não vê esperança na vida. Diante da dor, procuram alívio rápido em vícios. O que só aumenta os problemas.
Ao invés de memes e ilusão monetizada, deveríamos estar criando — e viralizando! — treinamentos emocionais seguros, honestos e amparados pela ciência, verdadeiramente capazes de ensinar adultos e crianças a criar resiliência diante dos desafios da vida. Mas estamos todos adoecidos. Talvez o limite entre o mundo real e virtual tenha se transformado. Em meio a isso, precisamos lembrar que somos nós que estamos enfraquecendo os vínculos afetivos, que nos tornam seres emocionais que pensam. Ou
pensavam?!
Parece que precisamos reaprender a ser humanos, a abraçar, a cuidar, a confortar. Reaprender a criar e sustentar relacionamentos, sem ajuda de emojis e prompts. Resta descobrir se será a IA quem vai nos ajudar com isso.
Bruna Sorensen
Bruna Sorensen é escritora, tem formação em psicologia e especialização
em terapia de casal e família.
*As opiniões expressas pelos colunistas não refletem a opinião do OPioneiro, sendo o autor do texto, responsável pelo conteúdo.