segunda-feira, 23 março, 2026
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ARTIGO: O luto que nos foi tirado: O velório necessário, mas proibido – Por Josiane Porsch

Já estamos há quase nove meses da eclosão do primeiro caso de COVID-19 no mundo. A pandemia se tornou fato, pessoas se contaminaram

e outras milhares já morreram. Se fosse em tempos normais, cada perda de vida seria reverenciada (luto) de acordo com a cultura local do falecido.

A pandemia se tornou fato. Se fosse em tempos normais, cada perda de vida seria reverenciada (luto) de acordo com a cultura local do falecido.

Aqui no Brasil, realizamos o velório, ritual fúnebre em que o caixão com a pessoa falecida fica em exposição para que familiares e amigos possam honrar ou velar aquele ente querido. Geralmente este ritual dura em torno de 6 horas, sendo portanto o momento da despedida. Nesse momento, tem-se início o processo de luto.

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Mas o que é o luto? O luto é um processo que se inicia após o rompimento de um vínculo, seja por morte ou separação, e estende-se até o período de sua elaboração – quando o indivíduo enlutado volta-se, novamente, ao mundo externo. É um processo essencial para que nós possamos nos reconstruir, nos reorganizar, diante deste rompimento, no caso aqui tratado, o luto pela morte. Passar pelo luto é um desafio emocional, psíquico e cognitivo com o qual todos nós temos que lidar e inclui transformação e ressignificação da relação com o que foi perdido. Neste sentido, o velório, ou qualquer outra forma de se reverenciar o falecido, torna-se um ritual necessário e parte deste processo.

Porém, diante da pandemia o que estamos vivenciando são corpos envoltos em sacos pretos, embalados como uma mercadoria e transportados solitariamente por agentes funerários e enterrados sem cerimônia, sem velório, sem tempo da despedida. Qual o impacto disto para aqueles que ficam e não puderam realizar a “despedida”?

A verdade é que o velório como ritual simbólico de despedida favorece o processo de luto, em que é possível dizer adeus, ainda que o morto não ouça, é possível dar um beijo na testa, fazer o último carinho nas mãos e assim, a pessoa que sofre a perda tem em sua mente esta imagem registrada e o sentimento de ter dito “adeus”. Com a impossibilidade deste ritual, as reações à perda serão muito mais potencializadas e a aceitação pode demorar para chegar, trazendo sofrimento psíquico e emocional ao enlutado, pois a imagem que está na memória será a última que ele tem de quem se foi, ou seja, entrando vivo em um hospital.

Dessa forma, é importante estar atento a quem perde alguém querido. Nesse momento, a psicoterapia pode contribuir no enfrentamento desse processo, como um espaço no qual o enlutado pode expressar a sua dor, ao mesmo tempo que promove o desenvolvimento de mecanismos internos que permitem superar fixações ou bloqueios, com vista à compreensão da perda e a um reposicionamento no mundo real.

Por Josiane de O. M. Pörsch.

Psicóloga – Universidade Mackenzie (São Paulo); Pós-Graduada em Psicologia Hospitalar – ICHC-FMUSP; Pós-Graduada em Educação Especial Inclusiva – UNOPAR; Pós-Graduada em Saúde da Família – Escola de Saúde Pública do Estado do MT; Pós-Graduada em Gestão Pública – IFMT.

Coach de Emagrecimento – Profissão Coach Express e Health Coach International Institute.

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